Você tem preenchido o seu vazio com coisas demais?

Na experiência analítica, nos deparamos frequentemente com o sujeito que chega exausto, atropelado por uma agenda que não admite frestas. A queixa costuma ser sobre o excesso de cansaço, mas a escuta clínica revela algo mais profundo: uma tentativa desesperada de tamponar o vazio constitutivo.

Para Jacques Lacan, o ser humano é estruturado em torno de uma falta. Não somos seres completos; somos “falta-a-ser”. É justamente esse “buraco” no centro do nosso ser que permite o movimento do desejo. No entanto, a cultura contemporânea — com sua promessa de satisfação imediata e consumo incessante — nos empurra a acreditar que esse vazio é um erro, uma falha que precisa ser preenchida.

Tentamos, então, saturar essa falta com o que Lacan chamou de objetos petit a: o novo gadget, a busca incessante por curtidas, o acúmulo de títulos ou a produtividade tóxica. O problema é que esses objetos são apenas substitutos. Eles prometem o encontro com o que nos completaria, mas entregam apenas uma satisfação efêmera, mantendo o sujeito capturado em uma repetição que nunca satisfaz.

O Real e o Silêncio da Linguagem

O “atropelo” tecnológico que sentimos hoje funciona como uma barreira de ruído para evitar o encontro com o Real. O Real é aquilo que foge à palavra, aquilo que angustia por não ter nome. Quando desaceleramos, quando o “fazer” cessa, o silêncio abre espaço para que a angústia emerja.

Muitos preenchem o vazio com “coisas demais” porque têm pânico de encontrar a própria falta. Mas é importante lembrar: onde o objeto preenche tudo, o desejo morre. Um sujeito sem falta é um sujeito paralisado, pois é a falta que nos faz buscar, criar e falar.

A saída não está em deletar as redes sociais ou se isolar do mundo, mas em recuperar a capacidade de olhar de perto e de longe.

A proposta da Psicanálise não é “curar” o vazio, mas mudar a relação do sujeito com ele mesmo. Desacelerar é um ato de resistência e, acima de tudo, um ato de saúde. Permitir que o vazio exista é dar espaço para que algo novo — e verdadeiramente seu — possa finalmente aparecer.

Em vez de tentar preencher o vaso com excessos que transbordam e nos afogam, a psicoterapia psicanalítica convida a reconhecer que é o vazio dentro do vaso que o torna útil. Ao dar lugar à falta, o sujeito pode parar de responder de forma automática às demandas do Outro e começar a se perguntar: o que, de fato, eu desejo para além do que me mandam ou demandam fazer?

É preciso aprender a ler os sinais que o corpo e os outros nos dão. Se você não consegue mais ouvir seus próprios pensamentos sem sentir urgência de “fazer algo”, talvez seu vazio esteja transbordando de coisas inúteis que não o levaram a lugar algum.

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